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Reportagem/Tênis - (03/07/2009 17h39min37 - Atualizado 16/09/2009 00h32min37 )

Maria Esther Bueno campeã mundial de tênis!


Felipe Held - São Paulo (SP)
Acervo/Gazeta Press
A CAMPANHA COROADA

Foram 16 sets, 14 vencidos por Maria Esther Bueno. Apuros, mesmo, ela só passou nas segunda e terceira rodadas, quando precisou virar o jogo para passar de fase.

Das oitavas de final em diante - ou seja,nas partidas teoricamente mais complicadas, a tenista brasileira não se apequenou. Mesmo tendo pela frente duas adversárias cabeças de chave. Confira:

1ª rodada - (6) Maria Esther v. Pauline Edwards (GBR): 6/1 e 6/3
2ª rodada - (6) Maria Esther v. Margot Dittmeyer (ALE): 4/6, 6/1 e 6/1
3ª rodada - (6) Maria Esther v. Mimi Arnold (EUA): 5/7, 6/3 e 6/1
Oitavas - (6) Maria Esther v. Ruia Morrison (NZL): 6/1 e 7/5
Quartas - (6) Maria Esther v. Edda Buding (ALE): duplo 6/3
Semifinais - (6) Maria Esther v. (7) Sally Moore (EUA): 6/2 e 6/4
Final - (6) Maria Esther v. (4) Darlene Hard (EUA): 6/4 e 6/3

"Miss Bueno lidera por 5/3, segundo set", anunciou o árbitro de cadeira. Já eram passados 42 minutos de jogo e Estherzinha vencera a primeira parcial por 6/4. A brasileira, de 19 anos, tinha o saque nas mãos para derrotar a norte-americana Darlene Hard e se sagrar campeã de Wimbledon naquela tarde atipicamente quente para um verão londrino: 37º C, marcavam os termômetros.

0-0: Maria Esther saca forte, no corpo de Hard, que tenta responder - mas mal consegue fazer a bola chegar rolando à rede.

15-0: A brasileira força demais o saque. Falta. Ela volta à linha de serviço, quica a bola duas vezes na grama e coloca a bola na quadra. Darlene Hard, três passos dentro da quadra, devolve mal. Estherzinha, já na rede, voleia forte, no contrapé da adversária.

30-0:
Mais um saque forte de Maria Esther Bueno. A bola beija o ângulo da quadra. A torcida aplaude e a brasileira se prepara para o ponto seguinte, mas a arbitragem indica a marcação: fora. Segundo serviço, Hard faz a devolução quatro passos à frente da linha e vai à rede para levar uma passada desconcertante.

40-0: triplo match point. Maria Esther não demora para sacar, mas o braço encurta. Bola na rede. No segundo saque, a brasileira tenta ousar e corre para a frente. Desta vez é ela quem sofre o contragolpe.

40-15: Darlene Hard abaixa a cabeça, ajeita o shorts curto, porém largo. Estherzinha saca aberto, complica a devolução da oponente. A resposta sai curta e a brasileira rebate em profundidade do outro lado, forçando a movimentação da norte-americana da direita para o esquerda da quadra. Hard alcança, mas não consegue direcionar o golpe. Bola longe da linha de fundo.

"Maria Esther Bueno campeã mundial de tênis!", estampou o jornal A Gazeta Esportiva na capa da edição de 5 de julho. "Mais uma vez tremula a bandeira do Brasil no mastro vitorioso dos certames mundiais! A garota notável do tênis brasileiro quebrou uma série de 21 anos de vitórias norte-americanas na disputa", evocou o periódico.

BARNES , FINALISTA ENTRE OS JUVENIS

Além de Maria Esther Bueno, outros dois tenistas brasileiros disputaram Wimbledon em 1959: os amigos 'Lelé' Fernandes e Ronald Barnes. Em simples e duplas mistas, ambos tiveram atuações discretas. Juntos, nas duplas masculinas, alcançaram a terceira rodada. Mas foi entre os juvenis que o País, por pouco, não viu outro campeão.

Ronnie Barnes, filho de ingleses nascido no Rio de Janeiro, chegou à final da chave para principiantes. Horas antes de Maria Esther Bueno vencer Darlene Hard, o carioca então com 18 anos disputou a final. Perdeu o jogo do título para o tenista Tomas Lejus, da extinta União Soviética: 2 sets a 0, parciais de 6/2 e 6/4.

A tenista brasileira foi mais regular que a adversária nos 43 minutos de partida daquele 4 de julho de 1959. Errou menos, embora tenha sofrido uma quebra de saque logo no primeiro game do primeiro set. A resposta veio em seguida, acompanhada pela confiança que por muitos anos marcou a melhor tenista brasileira da história.

A comemoração, porém, foi diferente: Estherzinha, impassível depois de cumprimentar Hard e o juiz de cadeira, sentou-se em uma cadeira e desabou em lágrimas. "Maria Esther Bueno chorava de alegria e fui reanimá-la para que ela pudesse receber a Duquesa de Kent e o troféu de prata", comentou o também tenista Ronald Barnes, para A Gazeta Esportiva em 10 de julho de 1959.

Maria Esther tem mesmo as recordações emotivas da final. "Lembro que fazia um dia bonito, mas não me recordo de mais nada. Era saque e voleio. Parecia que eu era outra pessoa jogando", reconstruiu a tenista ao livro O Tênis no Brasil - de Maria Esther Bueno a Gustavo Kuerten (Códex/2004). "Só realizei que tinha vencido quando ouvi 'game, set, match and championship'. Aí esperei um pouquinho, botei as coisas no chão, vi o diretor do torneio e o pessoal do cerimonial chegando. Depois de um tempo, percebi a grandiosidade do que tinha acontecido. Aí comecei a chorar. Chorei, chorei até não querer mais. E todo mundo falava 'Mas está tudo bem, não é para ficar triste, você ganhou'".

MARIA ESTHER, VICE EM DUPLAS MISTAS

Numa época em que grande maioria dos tenistas fazia questão de jogar todas as chaves, Estherzinha fez uma parceria afinada com o australiano Neale Fraser. Cabeças de chave 2, foram superados apenas na decisão pelo mítico e também australiano Rod Laver e por Darlene Hard.

Nas duplas femininas, porém, Maria Esther Bueno não teve vida longa ao lado da norte-americana Jean Arth. A eliminação veio logo na estreia para Beverly Fleitz (EUA) e Christine Truman (ING), terceiras pré-classificadas: 7/5 e 6/4.

Veja os resultados em duplas mistas:
1ª rodada - classificação automática
2ª rodada - (2) Maria Esther/Neale Fraser v. Sheila Bramley (GBR)/Sammy Khoury (LIB): 6/4 e 6/3
3ª rodada - (2) Maria Esther/Neale Fraser v. Pat Ward (GBR)/Gordon Forbers (AFS): 6/1 e 6/2
Oitavas - (2) Maria Esther/Neale Fraser v.Beverly e John Fleitz (EUA):6/4 e 6/2
Quartas - (2) Maria Esther/Neale Fraser v. Sandra Reynolds (AFS)/Roy Emerson (AUS): duplo 6/3
Semifinais - (2) Maria Esther/Neale Fraser v. Jean Arth/BobMark (ambos dos EUA): 6/3 e 6/2
Final - (3) Darlene Hard (EUA)/Rod Laver (AUS) v. (2) Maria Esther/Neale Fraser: 6/4 e 6/3 

Essa auto-estima elevada de Maria Esther foi evidente ao longo daquelas duas semanas em Londres. A brasileira, porém, não fazia uma temporada brilhante até chegar a Wimbledon. Ela tinha conquistado 'somente' cinco títulos até então: duplas em Caracas, dobradinha de simples e duplas em Birmingham, simples em Bristol e duplas mistas em Queen's.

No mesmo período do ano anterior, ela havia sido campeã 25 vezes (11 delas, em simples). Bem verdade é que Estherzinha não jogou a maior parte dessas competições, por causa de uma contusão no ombro que atrasou seu início de temporada em 1959.

Mas Wimbledon era o campeonato que valia para avaliação. Não havia rankings - tampouco associações profissionais - para determinar a melhor tenista do mundo. O Aberto da Inglaterra era a referência.

"Naquela época você podia perder todos os torneios do mundo, mas se vencia Wimbledon, tornava-se o melhor do mundo o ano inteiro", especifica Carlos Alberto 'Lelé' Fernandes, que não gosta muito de falar de si mesmo, mas foi um dos grandes representantes da história do tênis brasileiro. Ele foi o primeiro a chegar mais longe em Roland Garros: quartas de final em 1961. "Era inacreditável. Você perdia todos os torneios, mas se ganhava Wimbledon... ninguém abria a boca".

Ao mesmo tempo, contudo, era inevitável manter o silêncio naquele momento. Os mais renomados jornais do mundo evocavam a conquista da brasileira. Haja vista o editorial do jornal norte-americano New York Times: "A Srta. Maria Esther Bueno é uma nova estrela no firmamento do tênis", elogiou, assim como o Corriere dello Sport, da Itália. "O público inglês, entusiasmado pelo jogo de Maria Esther Bueno, esqueceu a sua tradicional fleuma, ovacionando durante muito tempo a nova estrela das quadras gramadas".