Ganhar o campeonato mundial de tênis deve ter sido mais tranquilo para Maria Esther Bueno que retornar ao Brasil - guardadas as devidas proporções, é claro. Tudo porque a chegada da tenista ganhadora de Wimbledon à sua cidade natal esteve prestes a ser cancelada: houve uma pane no motor do avião DC7-V da PanAir que trazia a ilustre passageira a bordo, forçando um pouso de emergência na Bahia.
Estherzinha era aguardada no Rio de Janeiro (a capital federal daquela época) às 11 horas para almoçar com o presidente Juscelino Kubitschek. O desembarque, entretanto, foi realizado quase sete horas depois. Às 17h55, o jato Constelation aterrissou no Aeroporto do Galeão, abriu as portas e, através delas, apareceu a menina de vestido azul claro com frisos brancos - a mesma cor do sapato. Ela parou um instante, pousou as raquetes sobre o braço esquerdo e com o direito, acenou.
Um sorriso apareceu no rosto de Maria Esther assim que o pai, Pedro Bueno, se encontrou com ela. "Papai, que alegria!", exclamou a tenista de 19 anos. Seu Pedro, emocionado, chorou e deu um beijo no rosto de Estherzinha, antes de dizer: "Muito obrigado, minha filha". Os dois membros da família Bueno tomaram uma 'baldeação' em um jato da Força Aérea Brasileira (FAB) do Aeroporto Santos Dummont e, de lá, seguiram para o Palácio das Laranjeiras para o encontro com JK.
O retorno de Maria Esther Bueno a São Paulo, porém, estava fadado ao cancelamento - o que certamente frustraria os cerca de 20 mil fãs aglomerados no Aeroporto de Congonhas esperando a campeã mundial desde as 14 horas. Para evitar essa enorme decepção do novo xodó do povo brasileiro, o encontro com o Presidente da República durou 15 minutos. Antes das 19 horas, a primeira mulher premiada com a medalha da Honra ao Mérito Desportivo estava novamente a bordo de um avião, agora com destino a São Paulo.
Maria Esther chegou, a capital paulista viveu um carnaval fora de época a partir das 21 horas: palmas, chuvas de papel picado, serpentinas e rojões para a tenista. A vencedora de Wimbledon, colocada no topo de um carro de bombeiros, foi a protagonista de um cortejo de Congonhas até o centro da cidade, seguida por cerca de outros 150 carros. A primeira parada da festa foi em frente à redação do jornal O Estado de S. Paulo, que patrocinou viagens da brasileira. Depois, na Avenida Cásper Líbero, as comemorações se intensificaram à frente da redação de A Gazeta Esportiva.
| A Gazeta Esportiva |
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"Parabéns toda equipe GAZETA ESPORTIVA brilhante vitória conquistada grande dedicação ao tênis, entusiasmo e esforço magno certame de Wimbledon. Campeã do mundo dá ao Brasil outro título mundial para orgulho de todos os brasileiros." |
"Parecia noite de São Silvestre", escreveu o jornalista Orlando Duarte na revista A Gazeta Esportiva Ilustrada, numa época em que a principal corrida de rua do atletismo brasileiro era disputada à noite. Às portas do 'Mais completo', Estherzinha recebeu uma coroa de louros do diretor de redação, Carlos Joel Nelli, ao som das bandas da Guarda Civil e da Força Pública.
"Estou ainda emocionada com as demonstrações de apreço e carinho recebidas no Rio, mais contente e emocionada nesta recepção aqui em São Paulo. Satisfeita em poder voltar para casa, trazendo o título tão desejado", declarou a tenista à edição de 11 de julho de A Gazeta Esportiva.
| Governador Carvalho Pinto |
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"No momento em que a jovem patrícia conquista o Campeonato Internacional de Wimbledon receba calorosas felicitações pelo magnífico feito, motivo de orgulho para o povo paulista e brasileiro." |
A apoteose do carnaval de inverno protagonizado por Estherzinha teve o Clube Tietê como palco final. No Vermelhinho, bordou uma das três estrelas de ouro no brasão do clube, fazendo companhia às de Maria Lenk (recordista mundial dos 200m e 400m peito) e Abílio Álvaro da Costa Couto (então recordista mundial na travessia do Canal da Mancha a nado). Então Maria Esther atravessou a rua, completando, enfim, o retorno ao lar.
