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Reportagem/Tênis - (03/07/2009 17h39min37 - Atualizado 16/09/2009 00h50min10 )

Carnaval fora de época para receber Estherzinha


Felipe Held - São Paulo (SP)

Ganhar o campeonato mundial de tênis deve ter sido mais tranquilo para Maria Esther Bueno que retornar ao Brasil - guardadas as devidas proporções, é claro. Tudo porque a chegada da tenista ganhadora de Wimbledon à sua cidade natal esteve prestes a ser cancelada: houve uma pane no motor do avião DC7-V da PanAir que trazia a ilustre passageira a bordo, forçando um pouso de emergência na Bahia.

Acervo/Gazeta Press
Telegrama do presidente Juscelino Kubitschek: Tenho a satisfação de enviar-lhe minhas cordiais congratulações pelo brilhante triunfo que agrega novamente aos nossos desportos nacionais. Sua vitória foi recebida sinceramente com júbilo pelo povo brasileiro.

Estherzinha era aguardada no Rio de Janeiro (a capital federal daquela época) às 11 horas para almoçar com o presidente Juscelino Kubitschek. O desembarque, entretanto, foi realizado quase sete horas depois. Às 17h55, o jato Constelation aterrissou no Aeroporto do Galeão, abriu as portas e, através delas, apareceu a menina de vestido azul claro com frisos brancos - a mesma cor do sapato. Ela parou um instante, pousou as raquetes sobre o braço esquerdo e com o direito, acenou.

Um sorriso apareceu no rosto de Maria Esther assim que o pai, Pedro Bueno, se encontrou com ela. "Papai, que alegria!", exclamou a tenista de 19 anos. Seu Pedro, emocionado, chorou e deu um beijo no rosto de Estherzinha, antes de dizer: "Muito obrigado, minha filha". Os dois membros da família Bueno tomaram uma 'baldeação' em um jato da Força Aérea Brasileira (FAB) do Aeroporto Santos Dummont e, de lá, seguiram para o Palácio das Laranjeiras para o encontro com JK.

Acervo/Gazeta Press
Seu Pedro, o pai: Não há como expressar minha satisfação. Estherzinha cumpriu com o que nos prometera na última missiva que nos enviou no início da semana. Minha filha escreveu dizendo que estava confiante e que tinha certeza de que conquistaria o título. Nunca me senti tão orgulhoso em toda a minha vida como hoje."

O retorno de Maria Esther Bueno a São Paulo, porém, estava fadado ao cancelamento - o que certamente frustraria os cerca de 20 mil fãs aglomerados no Aeroporto de Congonhas esperando a campeã mundial desde as 14 horas. Para evitar essa enorme decepção do novo xodó do povo brasileiro, o encontro com o Presidente da República durou 15 minutos. Antes das 19 horas, a primeira mulher premiada com a medalha da Honra ao Mérito Desportivo estava novamente a bordo de um avião, agora com destino a São Paulo.

Maria Esther chegou, a capital paulista viveu um carnaval fora de época a partir das 21 horas: palmas, chuvas de papel picado, serpentinas e rojões para a tenista. A vencedora de Wimbledon, colocada no topo de um carro de bombeiros, foi a protagonista de um cortejo de Congonhas até o centro da cidade, seguida por cerca de outros 150 carros. A primeira parada da festa foi em frente à redação do jornal O Estado de S. Paulo, que patrocinou viagens da brasileira. Depois, na Avenida Cásper Líbero, as comemorações se intensificaram à frente da redação de A Gazeta Esportiva.

A Gazeta Esportiva

"Parabéns toda equipe GAZETA ESPORTIVA brilhante vitória conquistada grande dedicação ao tênis, entusiasmo e esforço magno certame de Wimbledon. Campeã do mundo dá ao Brasil outro título mundial para orgulho de todos os brasileiros."

"Parecia noite de São Silvestre", escreveu o jornalista Orlando Duarte na revista A Gazeta Esportiva Ilustrada, numa época em que a principal corrida de rua do atletismo brasileiro era disputada à noite. Às portas do 'Mais completo', Estherzinha recebeu uma coroa de louros do diretor de redação, Carlos Joel Nelli, ao som das bandas da Guarda Civil e da Força Pública.

"Estou ainda emocionada com as demonstrações de apreço e carinho recebidas no Rio, mais contente e emocionada nesta recepção aqui em São Paulo. Satisfeita em poder voltar para casa, trazendo o título tão desejado", declarou a tenista à edição de 11 de julho de A Gazeta Esportiva.

Governador Carvalho Pinto

"No momento em que a jovem patrícia conquista o Campeonato Internacional de Wimbledon receba calorosas felicitações pelo magnífico feito, motivo de orgulho para o povo paulista e brasileiro."

A apoteose do carnaval de inverno protagonizado por Estherzinha teve o Clube Tietê como palco final. No Vermelhinho, bordou uma das três estrelas de ouro no brasão do clube, fazendo companhia às de Maria Lenk (recordista mundial dos 200m e 400m peito) e Abílio Álvaro da Costa Couto (então recordista mundial na travessia do Canal da Mancha a nado). Então Maria Esther atravessou a rua, completando, enfim, o retorno ao lar.