Ir para o conteúdo
Aumentar fonte Diminuir fonte

Reportagem/Tênis - (03/07/2009 17h39min37 - Atualizado 16/09/2009 00h45min55 )

Campeã no quintal de casa e no Tietê


Felipe Held - São Paulo (São Paulo)

Acervo/Gazeta Press
Estherzinha e o irmão Pedrinho: melhores amigos e inseparáveis até os dias de hoje

Foi num sobradinho simples de classe média e sem luxo, localizado no número 21 da Rua Guaporé, na zona norte de São Paulo e próximo ao então límpido Rio Tietê, que Esther Andion Bueno deu à luz a segunda filha, Maria Esther Bueno, em 11 de outubro de 1939. Era a segunda filha do casamento com Pedro de Oliveira Bueno, descendente dos bandeirantes Bueno da Ribeira, da região de Amparo, no interior paulista.

A família Bueno praticava tênis no Clube de Regatas Tietê nas horas de folga. Seu Pedro, ex-remador campeão paulista, incentivou a paixão dos dois filhos pelo tênis quando jogava quase todos os dias uma partidinha antes de ir para o trabalho. O primogênito Pedrinho, dois anos mais velho, e Maria Esther, menina travessa, miúda e com cabelos quase louros, esboçaram as primeiras trocas de bola no quintal da casa, com raquetes de madeira e um cobertor estendido sobre uma corda presa entre duas árvores.

"Hoje você é a fulana da Austrália", dizia Pedrinho, e Estherzinha retrucava: "Então você é o fulano da Inglaterra!". Todos os dias, essa era a quadra central de grandiosos torneios para os dois irmãos, assistidos por milhares de fãs - representados pelos bichinhos de estimação da família: um sagui, um jabuti e o cachorro Tchim, um pequinês de pelo branco.

Acervo/Gazeta Press
Maria Bueno e Ted Tinling, um dos estilistas mais conceituados da época. A brasileira era a modelo predileta para os vestidos de Wimbledon

Estherzinha, no Tietê, passou a observar melhor as partidas que via no clube e arriscava um bate-bola no paredão. O técnico Henrique Terroni, maravilhado com a dedicação daquela menina então com sete anos, decidiu lhe dar algumas aulas grátis. "Ela era muito humilde, não tinha condições de pagar", atesta Amélia Cury, que também foi treinada por Terroni e se sagrou em 1981 campeã mundial de veteranos. Duas décadas depois, em 2003, alcançou o vice-campeonato na categoria até 80 anos.

"Quando não estava treinando, a Maria Esther ficava me assistindo jogar", observou Terroni à revista TênisEsporte, de dezembro de 1979. "Podia ficar horas e tinha uma facilidade incrível para repetir os golpes. Sabe, ela seria campeã do mundo com qualquer técnico. Tive a felicidade de ser comigo", opinou.

Dos treinos com Henrique Terroni até a consagração não levou muito tempo. Em 1955, Maria Esther foi selecionada para os Jogos Pan-americanos da Cidade do México e retornou de lá com o bronze conquistado em duplas, ao lado de Ingrid Charlotte Metzner. No início de 1957, disputou os primeiros torneios profissionais em Estados Unidos, Caribe e América do Sul. Retornou no segundo semestre, para se formar professora no Ensino Normal - cumprindo o maior desejo de Seu Pedro.

A saída mais gloriosa de Estherzinha, contudo, foi no final de 1957, já com o diploma escolar e o vice-campeonato brasileiro adulto - perdeu a decisão para a grande rival Ingrid Metzner. Com a passagem bancada pelo jornal O Estado de S. Paulo e duas raquetes compradas graças a uma vaquinha de amigos de Tietê, a tenista partiu para jogar o Orange Bowl.

Acervo/Gazeta Press
Na imagem principal, Maria Esther recebe a medalha de bronze do Pan de 1955 nas duplas, com Ingrid Metzner

"Ela não tinha uma raquete decente e o (Alcides) Procópio (então presidente da Federação Paulista de Tênis) não queria dar nenhuma nova para ela", lembra Amélia Cury. "O Rubens Araújo Costa (grande amigo de Pedrinho Bueno, mais tarde vice-presidente da FPT) e eu organizamos uma vaquinha no clube, arrecadamos uns Cr$ 50 mil e demos as raquetes novinhas", complementa Amélia, na época modista e responsável por reformar os uniformes de jogo da tenista.

A pedido de Dona Esther, Amélia Cury gastou uma semana na casa dos Bueno para fazer os reparos necessários nos vestidinhos da amiga. O trabalho, Amélia gosta de dizer, não foi caridade: ela recebeu o pagamento cruzeiro por cruzeiro.

Estherzinha viajou para os EUA com Carlos Alberto 'Lelé' Fernandes para a disputa do Orange Bowl - desde aquela época e até hoje, o campeonato mundial de juvenis. A dupla brasileira chegou desacreditada perante o público, mas dias antes do início do torneio os dois paulistas deram mostras de que tinham um incrível potencial.

"Havia os norte-americanos que eram todos favoritos. Fomos a uma exibição de domingo, parecíamos dois coitadinhos... E depois o feio virou bonito", recorda Lelé, cujo irmão mais velho, Maneco Fernandes, foi um dos expoentes do tênis brasileiro na década de 1940. "Acabamos ganhando; eu em simples e duplas, a Maria Esther em simples. Foi sucesso total".