Rápido também foi o golpe que minou a carreira mais vitoriosa de uma tenista brasileira. Em dez horas, uma década de sucessos ficou sob xeque. Uma contusão no cotovelo direito sofrida justamente em Wimbledon colocou uma longa reticência na trajetória de Maria Esther Bueno no circuito. O ponto final, fatal, foi decorrência inevitável.
O ano já era 1967 e Maria Esther amargara sua pior campanha em Wimbledon: vice-campeã nos dois anos anteriores, a brasileira tinha sido eliminada nas oitavas de final pela norte-americana Rosie Casals. Em duplas e duplas mistas, a rainha brasileira tentava deixar Londres sem perder a majestade e alcançar mais dois títulos - seriam dez na grama do All England Club. Mas as chuvas apertaram o cronograma da 72ª edição do Aberto da Inglaterra, que não tinha um teto retrátil em sua quadra principal como o aparato instalado em 2009.
Estherzinha foi uma das vítimas desse calendário congestionado e disputou três partidas em 7 de julho, sexta-feira, das 12 às 22 horas: primeiro, Maria Esther jogou ao lado do australiano Ken Fletcher nas quartas de final de duplas mistas e derrotou os soviéticos Anna Dmitrieva e Alex Metreveli por 2 sets a 1, complicadas parciais de 5/7, 7/5 e 16/14. Naquela época, não havia tie-breaks para desempatar os sets quando a igualdade perdurava por 6/6.
Logo em seguida, disputou as semifinais contra os australianos Karen Krantzcke e Ray Ruffles: vitória muito mais fácil, por 6/3 e 6/1. O último jogo do dia foi pelas semis de duplas femininas. Com a norte-americana Nancy Richey, novo triunfo, mas com dificuldades: 2 a 1, placares de 4/6, 6/4 e 6/4,
Em dez horas de atuação, foram exatos 100 games. O braço direito da tenista destra não aguentou. O tendão do cotovelo de Maria Esther inflamou. Epicondilite. Tennis Elbow, no idioma falado dentro das dez linhas que delimitam uma quadra. Em resumo, o carrasco da carreira da maior atleta individual que o Brasil já teve.
Em 1967, depois de perder as finais de duplas e duplas mistas para a norte-americana Billie Jean King, Maria Esther Bueno foi obrigada a fazer o que menos gostava: ficar fora das quadras. Não viajou para a América do Norte, onde em agosto jogaria o Forest Hills - um dos mais importantes torneios do calendário. Na temporada seguinte, surpreendentemente, retornou em um bom nível e conquistou o Grand Slam dos Estados Unidos em duplas, com a australiana Margaret Smith Court. O 19º título de maior nível da carreira da brasileira. Apesar das desconfianças, das dores e das infiltrações. Mas também o último.
O começo de 1969 cobrou a ousadia de Estherzinha. Em março, no Torneio de Caracas, o braço deu o último e mais contundente aviso. A tenista involuntariamente soltou no chão um copo de Coca-Cola que pretendia tomar depois de se classificar para a final do campeonato venezuelano. Aos 29 anos, chegara a hora de parar e cuidar da lesão. A brasileira, obviamente, não disputou a decisão de Caracas.
Em uma década, Maria Esther Bueno foi submetida a várias cirurgias no cotovelo direito, além de outras intervenções médicas no joelho. A tenista tentou voltar em 1974, quando ganhou o Torneio de Tóquio graças a injeções de anti-inflamatórios antes das partidas. Parou novamente para se tratar e regressar ao circuito em 1976 - foi quadrifinalista de Wimbledon, já com 37 anos. Aos 38, parou definitivamente.
"Onde tudo começou, também terminou", lembrou Maria Esther ao jornal A Gazeta Esportiva em 4 de julho de 1999. "Enfrentei muitos problemas, muitos sacrifícios. O único motivo que me deixa triste é que minha carreira poderia ter sido muito mais longa", opinou.
Outra decepção de Estherzinha é o fato de ter conquistado pouquíssimo dinheiro no tênis. Se atuasse nos dias de hoje, seus prêmios financeiros superariam os US$ 20 milhões. Quando venceu Wimbledon em 1959, ganhou um vale-presente de 15 libras esterlinas. Ursos de pelúcia, roupas e algumas joias foram outras recompensas por títulos. "Consegui exatamente o que queria. Com exceção dos dólares de hoje, tive tudo o que se pode querer", sintetizou, ao jornal A Gazeta Esportiva em 21 de abril de 1996.
Principal tenista da história brasileira, Maria Esther Bueno encerrou a carreira, mas ainda assim continuou ligada ao tênis. Assumiu um cargo de consultora da Federação Internacional de Tênis (ITF), deu clínicas na Inglaterra e se tornou comentarista de TV: trabalhou para emissoras australianas, norte-americanas, para a britânica BBC e, mais recentemente, a brasileira Sportv.
Em São Paulo, a tenista tem cinco monumentos em sua homenagem. São três estátuas, erguidas no Clube de Regatas Tietê, no Estádio do Pacaembu e na Federação Paulista de Tênis; uma escultura em arte contemporânea, à frente da Sociedade Harmonia de Tênis - onde Estherzinha ainda joga tênis até hoje e depois se refresca com água de coco. O último tributo à genial tenista está no Parque das Bicicletas, com uma árvore plantada em dezembro de 2008 no Bosque da Fama.
As principais homenagens a Maria Esther, entretanto, foram feitas fora do Brasil. A tenista, tratada como rainha na Inglaterra e famosíssima pela Europa, entrou para o Hall da Fama do tênis em 1977. Em 1993, ingressou no Sport Museum Hall of Fame, em Nova York. A mais notável delas foi feita pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1998, integrando um grupo das 400 personalidades mundiais que mais se destacaram no milênio, para a virada do século. A brasileira foi a escolhida para representar o tênis.
"No tênis brasileiro, ninguém chegou nem perto de mim. Afinal, são 19 torneios Grand Slams que eu conquistei", gabou-se Maria Esther Bueno à Gazeta Esportiva.Net no final de 2008. "Essas conquistas são para sempre. Coloquei o Brasil no mapa em se tratando de esportes", resumiu a tenista, imponente e avessa a entrevistas.
