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Reportagem/Tênis - (15/09/2009 19h11min01 - Atualizado 16/09/2009 18h26min02 )
Bruno Ceccon - São Paulo (SP)

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Presidente Paulo Campos (de azul, à esquerda) recebe documentação de oficial de justiça

Instalada em sua atual sede desde dezembro de 1998, a Federação Paulista de Tênis (FPT) tem data e hora marcada para deixar o local. O terreno que abriga o prédio de dois andares no Complexo Constâncio Vaz Guimarães, no Ibirapuera, construído ao lado de três quadras de saibro, foi requisitado pelo Governo do Estado. Na tarde desta terça-feira, a GE.Net documentou com exclusividade a chegada de um oficial de justiça ao local para notificar o presidente Paulo Roberto Campos, que tem até às 16h do próximo dia 25 de setembro (sexta-feira) para desocupar o imóvel.

O terreno foi cedido à FPT pelo Governo do Estado em 1996. A construção do prédio e a reforma do piso das quadras foram concluídas dois anos depois. A entidade ocupou a sede no dia 14 de dezembro de 1998 e iniciou as atividades no imóvel erguido no local anteriormente ocupado por um paredão de tênis fora de uso em 1999. De acordo com a instituição, fundada no dia 6 de março de 1924 e atualmente com oito mil tenistas filiados ativos, foram investidos R$ 350 mil em recursos próprios.

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Entre preparativos para a mudança, presidente e oficial negociam prazo para desocupação

No centro de três processos, o prédio que abrigou a FPT nos últimos 10 anos localizado na Rua Abílio Soares não conta com a documentação exigida de um imóvel, da escritura ao chamado "habite-se". Em uma das ações, foi concedida liminar de reintegração de posse ao Estado. Também existe uma investigação administrativa para apurar os funcionários do governo responsáveis por permitir a construção da sede sem os trâmites de praxe. Além disso, o Estado ainda pede uma indenização de R$ 26 milhões.

A reportagem conversou com Paulo Roberto de Campos em sua sala no primeiro andar do prédio. No térreo, caixas de papelão amontoadas sinalizavam a mudança iminente. "Isso que está acontecendo é uma grande injustiça. É revoltante e nos deixa indignados. Ninguém pulou o muro para entrar aqui, teve a anuência do Estado", reclamou o presidente da entidade, que tentou, sem sucesso, entrar em contato com o governador José Serra. "O Estado está certo, não está errado. Mas se querem regularizar o imóvel, por que não regularizam comigo aqui dentro? É uma sacanagem", protesta.

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Eduardo Anastasi (à direita) queria que o local fosse desocupado já na segunda-feira

Na iminência do despejo, a FPT montou um dossiê sobre a sede. O único documento oficial que a entidade possui, arrolado junto com fotos da construção e registros da época, é um ofício assinado por Antônio Carlos Pereira, Coordenador de Esportes e Recreação, e enviado por ordem de Marcos Arbaitman, Secretário de Esportes e Turismo, datado do dia 8 de março de 1999. As autoridades parabenizam a entidade pela conclusão do prédio e atestam que a construção foi "realizada sem nenhum custo para os Cofres Públicos". O comunicado é dirigido a Raul Cilento, então presidente da organização.

O mesmo ofício afirma que "a atual sede dessa Federação encontra-se instalada por tempo indeterminado" e faz o seguinte esclarecimento: "com o intuito de deixar transparente nossa vinculação, esclarecemos, ainda, que compete à Secretária de Esportes e Turismo, dentro dos critérios de conveniência e oportunidade da Administração, requisitar a qualquer tempo a devolução do referido imóvel". A GE.Net entrou em contato com a assessoria de imprensa de Claury Alves, atual titular da pasta, mas o assunto foi encaminhado para Eduardo Anastasi, diretor do Complexo Constâncio Vaz Guimarães.

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
A FPT ocupou o prédio de dois andares nos últimos dez anos

"Não tem alvará, não tem planta aprovada, não tem laudo do bombeiro, não tem laudo do Contru. Não tem nada. Sem tudo isso, não tem nem como alguém entrar no local. Esse prédio não existe. Se pegar fogo lá dentro e morrer alguém, estamos ferrados", argumenta Anastasi. Outras federações estaduais, como as de vôlei, judô e esportes aquáticos, também estão instaladas no Complexo, em algumas salas. "As outras federações me cobram muito por isso. Elas perguntam: por que eles (o tênis), podem fazer um prédio e nós, não'?", explica.

Anastasi garante que entrou em contato com Campos e ofereceu salas nos mesmos moldes das demais federações. "Eu fiz essa proposta: 'a gente retoma o prédio, cancela o processo e depois vê o que é possível fazer'. Mas eles não quiseram abrir mão do imóvel", assegura. O próprio diretor trabalha em uma sala no local. A sede não tem uma destinação definida, mas ele admite a possibilidade de ocupar o prédio. "Podemos ver se mudamos a administração para lá e abrimos mais salas aqui para o pessoal médico, de fisioterapia. Vamos ver qual é a conveniência do Estado", afirma.

Paulo Campos diz que o diretor do complexo age de forma "truculenta" e faz "ameaças". Segundo ele, era inviável transferir a sede da FPT para o local oferecido pelo administrador. "Ele queria me colocar em um lugar debaixo da escada que não tinha condição. É sub-humano. Não teria como ir com a nossa estrutura para esse lugar. Eu tentei entrar em acordo de todas as formas para regularizar", argumenta. Nascido em Ribeirão Preto, ele tem uma empresa que fabrica quadras de tênis e lamenta sua reeleição no cargo para o quadriênio 2009-2012.

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Paulo Campos planeja transferir a sede para uma casa na Vila Mariana

Questionado sobre as consequências do despejo da FPT para a modalidade, Anastasi é taxativo. "O que é feio para o tênis paulista é ter tido lá atrás um administrador que construiu um prédio desses de forma totalmente irregular. Com esse dinheiro, por que eles não alugaram uma casa? Porque tem outros interesses", acusa. Segundo o administrador, o Estado cobra uma indenização de R$ 26 milhões (cálculo de agosto de 2008), baseada no uso de 30 vagas de estacionamento [N.R.: o atual estacionamento comporta menos de dez carros], no aluguel da área estimado por mês, no uso de um posto de segurança e na locação das quadras desde que a entidade passou a ocupar o local.

Resignado, o presidente Paulo Campos já deu entrada nos trâmites para alugar uma casa na Vila Mariana e fazer a mudança da sede da Federação. "O tênis já está em uma situação difícil. Desse jeito, vai ficar ainda mais complicado viabilizar as coisas. É uma decisão sem bom-senso e nada inteligente. Quem perde, é o esporte", finaliza o mandatário.